Eu conhecia todas as palavras

Eu conhecia todas as palavras,
até que me habituei aos grasnos
dos abutres perfilados
à espreita dos meus dias.

Hoje só conheço o som da relva,
a linguagem do cerrado
e a semiótica das pradarias.

E, por isso, rendo-me em gozo aos abutres,
por, enfim, fazer perene minha carne
em perpétua cadeia trófica
que só não herdará o meu cinismo.

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o ponteiro do relógio da existência

o ponteiro do relógio da existência
cansou de ser apenas ponteiro
– queria ser o tempo, ele próprio.

(Pois o tempo é dimensão,
e a técnica de medi-lo é outra estória)

o tempo que passa e é percebido pelo ponteiro do relógio
é quiçá apenas comparação espacial de percepção neuronal.

mas o tempo, ele próprio,
se pauta pela angústia,
pela decadência das sociedades,
pela diferentes dores que sofrem os animais humanos e não humanos
e pela morbidez dos átomos que compõem qualquer matéria

A existência é única e comungada.
– a existência humana, dos ratos,
dos macacos, dos vermes e das bactérias –
todas elas uma só.

Há milhões de anos-luz, a direita ou esquerda da terra,
sistemas conscientes talvez vivos ou não vivos
também questionam-se sobre diferentes
prováveis sistemas conscientes vivos ou não vivos.

Talvez providos de capacidade neuronal superior,
entendem o tempo metafísico como sendo físico –
e nele se deslocam através de máquinas
movidas a angústia ou qualquer outro metafisicismo.

e vislumbram a decadência dos diferentes povos
do nosso planeta e de muitos outros,
da espécie humana e das baratas.

(31/05/2015)

 

dê-me um sopro e um fim

dê-me um cancro ou cólera
dê-me um sopro e um fim
dê-me um instante que seja o último
e perfure-me com um objeto letal

permita-me sucumbir a qualquer doença
permita-me um fim dolor ou indolor
permita-me durar nem mais um segundo
permita-me ser cinzas numa lata de nescau

alforrie-me das diferentes dores cultivadas pelo homem
– as estúpidas crueldades inerentes à sua natureza –

e perfure meu crânio
com o projétil mais belo que houver

(06/10/2018)

a título de exemplo

Aprendi a assobiar mas não sei se prefiro minhas veias fechadas ou abertas.

Eu explico.

É que todo o pouco que sou soa como uma forjada pretensão – a título de exemplo, já ecoam estas linhas, que não são versos, mas versos se sentem. Como aquele que aprende assobiar, há quem aprenda entabular versos e creia que o universo lhe pinçou. E ao se perguntar sobre o porquê de ser o que é – mesmo que não o seja – e entender que é aquilo – que talvez não seja – por ter que haver um ser para cada o quê, surge a questão acerca daqueles que preferem as veias fechadas ou abertas.