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dê-me um sopro e um fim

dê-me um cancro ou cólera
dê-me um sopro e um fim
dê-me um instante que seja o último
e perfure-me com um objeto letal

permita-me sucumbir a qualquer doença
permita-me um fim dolor ou indolor
permita-me durar nem mais um segundo
permita-me ser cinzas numa lata de nescau

alforrie-me das diferentes dores cultivadas pelo homem
– as estúpidas crueldades inerentes à sua natureza –

e perfure meu crânio
com o projétil mais belo que houver

(06/10/2018)

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Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.

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existe um espaço vazio em minha memória

existe um espaço vazio em minha memória,
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo,
e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

e ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo,
e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
registrando o perdão que nunca hei de conceder.

 

 

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a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

os cômodos continuam vazios

Abro a porta apenas para reparar que os cômodos continuam vazios.
Penso que se houvesse mais alguém por aqui, a estrutura da casa entraria em colapso pela novidade de um corpo estranho.
– talvez a formação de uma supernova ou buraco negro
ou outro desses fenômenos para mim inexplicáveis.

Mas talvez seja isto que espero,
talvez por isto insisto em comprar sempre o dobro de tudo
o dobro de remédios
o dobro de comida
o dobro de cigarros
o dobro de veneno de formiga
e uso todos.
– penso que talvez assim a casa possa ir se acostumando caso algum dia alguém queira saber mais que o meu nome
ou me pergunte na rua algo mais que o horário.

(Uns dias atrás quando abri a janela, percebi um vulto preto que me acompanhava pelo chão e parecia tentar repetir meus movimentos de maneira ágil porém um tanto que deformada. Algumas vezes ele aparecia pelas paredes. Ele está sempre comigo desde então, seus pés são os meus pés e estamos sempre juntos. Mantenho a janela aberta esperando por mais sombras que não a minha.)

(25/05/2016)