Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.