Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.

as saídas foram lacradas

Inutilmente a civilização pretende-se alheia à substância humana,
entregando-se ao êxtase espúrio do senso de propósito ofertado pelas crenças religiosas,
como uma horda necrófaga sobre a carcaça do enigma do Universo,
ávida por uma pista que negue o silêncio absurdo que ecoa do abismo dentro de si.

o absurdo

Viver é constatar o absurdo do existir
e existir é perdurar a matéria através do tempo,
oferecendo às larvas a substância de si
– matéria é a substância que habita o espaço,
é existência desprovida de essência.

A vida é o arranjo da matéria perdurada em carcaça viva,
é a substância a traduzir a essência consciente da morte,
é a matéria a comungar o espaço e a existência com a carcaça da vida.

Viver é o ser da carcaça constituída de matéria:
existe eternamente a matéria,
existe a carcaça enquanto houver vida.

O viver não é mera constatação de essência ou metafísica,
é o absurdo do impossível a repetir-se,
é o fracasso da conservação de energia pelos sistemas de produção humanos,
é a energia potencial a dissipar-se por especulação fora de um sistema lógico,
é o indivíduo a rastejar-se pelas ruas e avenidas,
é a civilização a constranger-se pelas normas que impõe,
é a urgência por ser sublime e infalível,
é o cimento contra o peito
e o carbono da cidade.

(27/12/2018)