existe um espaço vazio em minha memória

existe um espaço vazio em minha memória,
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo,
e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

e ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo,
e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
registrando o perdão que nunca hei de conceder.

 

 

a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.
Esta mania desavisada de dizer que as rosas,
as estrelas, a lua, o sol e todas as coisas significam algo.
Que significado tem uma rosa feia?
Que sentido excepcional tem o brilho das estrelas?
Por que proclamam a lua cheia sua musa
se a lua é a mesma todos os dias?


Vi, numa tarde ociosa,
como todas as tardes,
uma rosa feia ao pé da estrada.

(uma vez, disse um poeta,
que nas rosas feias enxergava um suspiro fatal
que anunciava o fim de tudo)

Mas eu não enxergava nada disso.
A rosa: pétalas miúdas, caule raquítico.
Mas que por serem pétalas e caule,
e estarem embutidos de uma mecânica inerte de Xilema e Floema,
ainda era chamada de rosa e declarada viva.

Ah! Que mecânica inútil é esta que nos faz chamar algo de vivo ou morto?
Na planta, incansável mania de Xilema e Floema.
No homem, trabalho fadigado de glóbulos vermelhos,
brancos, azuis e amarelos!

Eu não me importo. Onde nisso encontro metafísica?
Senão, apenas, mecânica inerte que pulsa no peito por ação e reação!
Se ao menos dissessem que a metafísica se aloja na dinâmica sublime dos neurônios…

O que penso eu da rosa feia?
Penso que é uma rosa e que é feia.
Se fosse algo mais, não seria rosa,
seria invenção.

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto