o absurdo

Viver é constatar o absurdo do existir
e existir é perdurar a matéria através do tempo,
oferecendo às larvas a substância de si
– matéria é a substância que habita o espaço,
é existência desprovida de essência.

A vida é o arranjo da matéria perdurada em carcaça viva,
é a substância a traduzir a essência consciente da morte,
é a matéria a comungar o espaço e a existência com a carcaça da vida.

Viver é o ser da carcaça constituída de matéria:
existe eternamente a matéria,
existe a carcaça enquanto houver vida.

O viver não é mera constatação de essência ou metafísica,
é o absurdo do impossível a repetir-se,
é o fracasso da conservação de energia pelos sistemas de produção humanos,
é a energia potencial a dissipar-se por especulação fora de um sistema lógico,
é o indivíduo a rastejar-se pelas ruas e avenidas,
é a civilização a constranger-se pelas normas que impõe,
é a urgência por ser sublime e infalível,
é o cimento contra o peito
e o carbono da cidade.

(27/12/2018)

Os centros urbanos engolem as massas

Os centros urbanos engolem as massas
pelos túneis, edifícios, anéis viários
e repartições públicas de arquitetura brutalista,
que rangem a alma contra o concreto
e perfuram-na com colunas meramente decorativas.

As metrópoles atraem as massas
ofertando trabalho, sexo e dívidas,
e cospem-nas ao fim do dia
para que um novo dia amanheça,
pulverizando-se os sonhos
e tecendo as tragédias da vida moderna.

Mas a tragédia do cotidiano é apenas vestígio
da grande catástrofe da civilização humana
que jamais anunciaria-se nestes versos rasos.

existe um espaço vazio em minha memória

existe um espaço vazio em minha memória
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo

e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

e ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo,
e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
registrando a remissão que nunca hei de conceder.

 

 

a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)