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Os centros urbanos engolem as massas

Os centros urbanos engolem as massas
pelos túneis, edifícios, anéis viários
e repartições públicas de arquitetura brutalista,
que rangem a alma contra o concreto
e perfuram-na com colunas meramente decorativas.

As metrópoles atraem as massas
ofertando trabalho, sexo e dívidas,
e cospem-nas ao fim do dia
para que um novo dia amanheça,
pulverizando-se os sonhos
e tecendo as tragédias da vida moderna.

Mas a tragédia do cotidiano é apenas vestígio
da grande catástrofe da civilização humana
que jamais anunciaria-se nestes versos rasos.

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.
Esta mania desavisada de dizer que as rosas,
as estrelas, a lua, o sol e todas as coisas significam algo.
Que significado tem uma rosa feia?
Que sentido excepcional tem o brilho das estrelas?
Por que proclamam a lua cheia sua musa
se a lua é a mesma todos os dias?


Vi, numa tarde ociosa,
como todas as tardes,
uma rosa feia ao pé da estrada.

(uma vez, disse um poeta,
que nas rosas feias enxergava um suspiro fatal
que anunciava o fim de tudo)

Mas eu não enxergava nada disso.
A rosa: pétalas miúdas, caule raquítico.
Mas que por serem pétalas e caule,
e estarem embutidos de uma mecânica inerte de Xilema e Floema,
ainda era chamada de rosa e declarada viva.

Ah! Que mecânica inútil é esta que nos faz chamar algo de vivo ou morto?
Na planta, incansável mania de Xilema e Floema.
No homem, trabalho fadigado de glóbulos vermelhos,
brancos, azuis e amarelos!

Eu não me importo. Onde nisso encontro metafísica?
Senão, apenas, mecânica inerte que pulsa no peito por ação e reação!
Se ao menos dissessem que a metafísica se aloja na dinâmica sublime dos neurônios…

O que penso eu da rosa feia?
Penso que é uma rosa e que é feia.
Se fosse algo mais, não seria rosa,
seria invenção.

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

A náusea é um poema

A náusea é um poema
pregado muito fundo
com prego enferrujado:
como vacina de esperança,
lhe apresenta o mundo
mostrando o pior.

A civilização é uma estrofe,
que lhe causa vômito e enjoo,
como um grito de declame,
agudo, nunca findo,
que caduca muito estreita
entre o homem e o devaneio.

E entre estrofes há um universo:
a espera por um conforto que não virá;
as conquistas regredidas;
a esperança transformada em pó;
os segundos perdidos de uma vida;
o suspiro de desesperança;

Então na vida identifico o poeta:
músicos surdos,
pintores daltônicos,
escritores disléxicos,
floristas alérgicos;

E em cada um destes
me apego, me agarro,
tentando entender a náusea da civilização.

(10/11/2015)

atravessando ruas de olhos fechados

andava pelas ruas desejando o impacto dos ônibus
atravessando ruas de olhos fechados
e desejando meu último instante

hoje, algo mudou.
descobri que todos os instantes são os últimos
e sinto o impacto dos ônibus a cada segundo
com os olhos fechados ou abertos

e que não há saída para o mal-estar na civilização

decidi que quero viver

surpreendentemente, decidi que quero viver:
quero, apaixonadamente, viver.
viver os momentos intensamente,
ouvindo a voz de quem me conta uma história,
uma história épica ou uma história estúpida,
qualquer história me encantaria.

Ao mesmo tempo eu estaria confabulando planos,
planos possíveis e impossíveis,
planos pessoais, profissionais e oníricos.

Seria capaz de mudar o mundo:
ser voluntário na África,
doar sangue, medula e meu rim,
ir à Paulista ou Esquina Democrática protestar contra a mais recente injustiça
e oferecer água à todos os mendigos da Rua da República.

O que for que seja,
se eu pudesse sentir todos os dias o ânimo de agora,
este ânimo que já se foi,
eu mudaria tudo neste instante,
eu correria todo o perímetro terrestre só para impedir a mais simples injustiça

mas neste instante o cansaço retorna:
eu já desejo que um vírus elimine a espécie humana.
minha bondade deseja que este vírus não cause dor
e que ao menos este Armagedom não dure mais que um mês ou dois

planos, não há mais.
a vida se esconde atrás das paredes do meu quarto
e meu quarto é o mundo.