dê-me um sopro e um fim

dê-me um cancro ou cólera
dê-me um sopro e um fim
dê-me um instante que seja o último
e perfure-me com um objeto letal

permita-me sucumbir a qualquer doença
permita-me um fim dolor ou indolor
permita-me durar nem mais um segundo
permita-me ser cinzas numa lata de nescau

alforrie-me das diferentes dores cultivadas pelo homem
– as estúpidas crueldades inerentes à sua natureza –

e perfure meu crânio
com o projétil mais belo que houver

(06/10/2018)

atravessando ruas de olhos fechados

andava pelas ruas desejando o impacto dos ônibus
atravessando ruas de olhos fechados
e desejando meu último instante

hoje, algo mudou.
descobri que todos os instantes são os últimos
e sinto o impacto dos ônibus a cada segundo
com os olhos fechados ou abertos

e que não há saída para o mal-estar na civilização

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

na data do meu velório

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz. Por nunca mais precisar ouvir a voz humana, nada jamais voltará a atormentar meu espírito.

Aqueles que forem vestidos de preto acompanhar o sepultamento do meu cadáver serão os últimos a prestar desonra e a me causar angústias. Isto, pois não há verdade alguma em rituais milenares, e pouco me interessa a metafísica a qual eles se agarram. A pura construção dos ritos de luto me causa enjoo e vômito – no dia seguinte à minha morte, a vida seguirá com as mesmas vozes igualmente inúteis.

Quando minha única companhia for aquela oferecida pelos vermes dentro do caixão, estes saberão que a carne que comem é carne e nada mais. Ao contrário do que os medíocres sempre tentaram me fazer acreditar, nunca cri em metafísica que justificasse a essência superior de qualquer matéria sobre outra. A essência das coisas nunca teve seu valor definido pelo quanto sua definição é repetida pelas sociedades humanas e suas crenças perfunctórias.

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz.

(01/09/2015, 17:12)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto

(17/08/2015, 01:52)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto, e o cadáver era meu. Sim, cadáver, pois minhas mãos frias, ainda que imbuídas de circulação sanguínea, já não ofereceriam afago para nenhum rosto, e meus olhos há muito já não conseguem demonstrar vida ou interesse.

Estou vivo e estou morto e há muito tempo sinto que em mim não há mais vida. Pois aquilo que é imbuído de uma mecânica inerte de funcionamento de glóbulos vermelhos e batimentos cardíacos não basta para dizer que “está vivo”.

É necessário mais. E percebo que não tenho mais. Minhas habilidades artísticas, de expressão e a poesia, estão em decadência. Não tenho sonhos que sejam maiores que a vontade de estar na cama e chorar. Chorar, pois quando não há gana por algo, resta a melancolia.

cianeto no café da manhã de velhinhas inocentes

Quis notar as praias francesas
antes que explodi-las tornasse mais interessante.

Tive vontade de colocar cianeto
no café da manhã de velhinhas inocentes
antes que, ao fim da vida,
elas notassem o que era o grande mundo.

E ao respirar a fumaça do intemperismo social,
tive vontade de destruir tudo aquilo que era mais belo
que a vista da minha sacada.

(17/11/2013)

sinto-me abraçado à hélices

Sinto-me abraçado à hélices,
que me rasgam, dilaceram,
e me dividem em pedaços
incontáveis e desprezíveis
acordando-me aos prantos
para outro dia.

Sinto-me abraçado à hélices,
que giram e rasgam,
e giram, me cortam,
espalhando meu sangue
nestas manchas do colchão

Histérico e inútil,
com perguntas sem sentido
declaro culpados todos os singulares instantes
que impetuosamente estão instalados
entre hoje e o suicídio

os instantes foram criados para serem sofridos
e por isso os sofro agarrado às hélices
que me rasgam, dilaceram,
me rasgam, me cortam

(30/10/2013)