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a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

os cômodos continuam vazios

Abro a porta apenas para reparar que os cômodos continuam vazios.
Penso que se houvesse mais alguém por aqui, a estrutura da casa entraria em colapso pela novidade de um corpo estranho.
– talvez a formação de uma supernova ou buraco negro
ou outro desses fenômenos para mim inexplicáveis.

Mas talvez seja isto que espero,
talvez por isto insisto em comprar sempre o dobro de tudo
o dobro de remédios
o dobro de comida
o dobro de cigarros
o dobro de veneno de formiga
e uso todos.
– penso que talvez assim a casa possa ir se acostumando caso algum dia alguém queira saber mais que o meu nome
ou me pergunte na rua algo mais que o horário.

(Uns dias atrás quando abri a janela, percebi um vulto preto que me acompanhava pelo chão e parecia tentar repetir meus movimentos de maneira ágil porém um tanto que deformada. Algumas vezes ele aparecia pelas paredes. Ele está sempre comigo desde então, seus pés são os meus pés e estamos sempre juntos. Mantenho a janela aberta esperando por mais sombras que não a minha.)

(25/05/2016)

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

sinto-me abraçado à hélices

Sinto-me abraçado à hélices,
que me rasgam, dilaceram,
e me dividem em pedaços
incontáveis e desprezíveis
acordando-me aos prantos
para outro dia.

Sinto-me abraçado à hélices,
que giram e rasgam,
e giram, me cortam,
espalhando meu sangue
nestas manchas do colchão

Histérico e inútil,
com perguntas sem sentido
declaro culpados todos os singulares instantes
que impetuosamente estão instalados
entre hoje e o suicídio

os instantes foram criados para serem sofridos
e por isso os sofro agarrado às hélices
que me rasgam, dilaceram,
me rasgam, me cortam

(30/10/2013)