o absurdo

Viver é constatar o absurdo do existir
e existir é perdurar a matéria através do tempo,
oferecendo às larvas a substância de si
– matéria é a substância que habita o espaço,
é existência desprovida de essência.

A vida é o arranjo da matéria perdurada em carcaça viva,
é a substância a traduzir a essência consciente da morte,
é a matéria a comungar o espaço e a existência com a carcaça da vida.

Viver é o ser da carcaça constituída de matéria:
existe eternamente a matéria,
existe a carcaça enquanto houver vida.

O viver não é mera constatação de essência ou metafísica,
é o absurdo do impossível a repetir-se,
é o fracasso da conservação de energia pelos sistemas de produção humanos,
é a energia potencial a dissipar-se por especulação fora de um sistema lógico,
é o indivíduo a rastejar-se pelas ruas e avenidas,
é a civilização a constranger-se pelas normas que impõe,
é a urgência por ser sublime e infalível,
é o cimento contra o peito
e o carbono da cidade.

(27/12/2018)

existe um espaço vazio em minha memória

existe um espaço vazio em minha memória
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo

e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

e ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo,
e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
registrando a remissão que nunca hei de conceder.

 

 

cianeto no café da manhã de velhinhas inocentes

Quis notar as praias francesas
antes que explodi-las tornasse mais interessante.

Tive vontade de colocar cianeto
no café da manhã de velhinhas inocentes
antes que, ao fim da vida,
elas notassem o que era o grande mundo.

E ao respirar a fumaça do intemperismo social,
tive vontade de destruir tudo aquilo que era mais belo
que a vista da minha sacada.

(17/11/2013)