a título de exemplo

Aprendi a assobiar mas não sei se prefiro minhas veias fechadas ou abertas.

Eu explico.

É que todo o pouco que sou soa como uma forjada pretensão – a título de exemplo, já ecoam estas linhas, que não são versos, mas versos se sentem. Como aquele que aprende assobiar, há quem aprenda entabular versos e creia que o universo lhe pinçou. E ao se perguntar sobre o porquê de ser o que é – mesmo que não o seja – e entender que é aquilo – que talvez não seja – por ter que haver um ser para cada o quê, surge a questão acerca daqueles que preferem as veias fechadas ou abertas.

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O louco, o puro e o impossível

Aquele que existe, nem sempre vive.
Tampouco lhe é certo o prognóstico de dias serenos
e a coerência entre o que sentes
e como és capaz de agir diante da própria loucura.

Existir é axiomático e independe dos elementos próprios do ato de viver, mas, apesar disso, permaneço avesso ao suicídio, pelo barato de fitar, com cinismo, o absurdo da falta de porquês. Perceber a própria existência de outra maneira é negar o vazio que deveras sentes, abafando o frenesi evidente do seu constante desassossego.

E eu continuo aqui pela razão de sempre: sou louco e sou lúcido.

Louco por navegar sem rumo.
Lúcido por saber que não há um rumo.

E não pretendo, como Sísifo, iludir-me em propósitos espúrios de pio desiderio.
Substabeleço aos cegos e ingênuos a lascívia de iludir-se em propósitos frágeis e inatos, aceitos pelas mentes tão ingênuas quanto os corpos puros que habitam.

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Dentre os propósitos que insisti,
não nego que sois a mais exótica imagem
sempre pura e estática,
todavia inquieta,
em frequências cristalinas,
adversas das minhas.

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Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.

as saídas foram lacradas

Inutilmente a civilização pretende-se alheia à substância humana,
entregando-se ao êxtase espúrio do senso de propósito ofertado pelas crenças religiosas,
como uma horda necrófaga sobre a carcaça do enigma do Universo,
ávida por uma pista que negue o silêncio absurdo que ecoa do abismo dentro de si.

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o absurdo

Viver é constatar o absurdo do existir
e existir é perdurar a matéria através do tempo,
oferecendo às larvas a substância de si
– matéria é a substância que habita o espaço,
é existência desprovida de essência.

A vida é o arranjo da matéria perdurada em carcaça viva,
é a substância a traduzir a essência consciente da morte,
é a matéria a comungar o espaço e a existência com a carcaça da vida.

Viver é o ser da carcaça constituída de matéria:
existe eternamente a matéria,
existe a carcaça enquanto houver vida.

O viver não é mera constatação de essência ou metafísica,
é o absurdo do impossível a repetir-se,
é o fracasso da conservação de energia pelos sistemas de produção humanos,
é a energia potencial a dissipar-se por especulação fora de um sistema lógico,
é o indivíduo a rastejar-se pelas ruas e avenidas,
é a civilização a constranger-se pelas normas que impõe,
é a urgência por ser sublime e infalível,
é o cimento contra o peito
e o carbono da cidade.

(27/12/2018)
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a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)
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nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.