a título de exemplo

Aprendi a assobiar mas não sei se prefiro minhas veias fechadas ou abertas.

Eu explico.

É que todo o pouco que sou soa como uma forjada pretensão – a título de exemplo, já ecoam estas linhas, que não são versos, mas versos se sentem. Como aquele que aprende assobiar, há quem aprenda entabular versos e creia que o universo lhe pinçou. E ao se perguntar sobre o porquê de ser o que é – mesmo que não o seja – e entender que é aquilo – que talvez não seja – por ter que haver um ser para cada o quê, surge a questão acerca daqueles que preferem as veias fechadas ou abertas.

as saídas foram lacradas

Inutilmente a civilização pretende-se alheia à substância humana,
entregando-se ao êxtase espúrio do senso de propósito ofertado pelas crenças religiosas,
como uma horda necrófaga sobre a carcaça do enigma do Universo,
ávida por uma pista que negue o silêncio absurdo que ecoa do abismo dentro de si.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo do coração aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria

e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(17/07/2014)

é preciso reconhecer a pequenez dos prédios e edifícios

Às vezes, sei que a vida é isso:
é habitar as ruas e avenidas,
e no cimento rastejar;
é se apegar aos bons rapazes,
e sem eles, se afogar;
é usar calças pretas
e estar bêbado de amar;
é preciso reconhecer a pequenez dos prédios e edifícios,
mas ainda assim é necessário subir-los e avistar o mundo;
é preciso conhecer os homens e suas diferentes dores
e senti-las antes de morrer;
é preciso notar a cidade
e respirar o carbono dos carros e locomotivas.

(31/10/2013)