esta espécie de paixão

(06/07/2015, 04:41)

Ao rapaz bonito que entrava na sala, eu acenava. Acenava todos os dias. Acenava não com as mãos, mas com um embaraçoso movimento com a cabeça, que às vezes era acompanhado por um sorriso sem jeito. Meus olhos fitavam os dele por qualquer chance de contato visual – que nunca ocorria. E a cada aceno ignorado, eu me apaixonava.

É verdade, nunca nos falamos. Mas às vezes eu esquecia disso. Tinha para mim que éramos íntimos, até porque eu conhecia cada detalhe de sua vida – por meio de suas redes sociais, é claro. Eu sabia quem eram seus melhores amigos e o tipo de relação que ele tinha com cada um deles. Sabia onde ele havia comemorado seus últimos três aniversários e sinto como se eu quase pudesse adivinhar as músicas de sua playlist favorita.

Só que ontem me deparei com a realidade: a beleza que atribuo ao garoto existe pela simples noção da impossibilidade do abstrato ser concreto. Nunca irei abordá-lo, pois nunca abordo ninguém. Crio esta espécie de paixão não pelo alvo, mas pela ruminação.

Hoje não acredito que haja beleza neste mundo,
muito menos há esperança.

Aquela beleza que enxergávamos no amor
foi substituída pela certeza de que, na verdade,
ama-se perdidamente aquilo que é abstrato
e repudia-se sumariamente aquilo que é concreto.​

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